sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Doménica

 


«APARECEU numa manhã de domingo no jardim. Por sinal, uma manhã bastante fria.

Devia ser por volta do meio-dia quando ouvimos os gritos e acorremos todos: era uma menina que tinha espetado um pico de roseira na mão direita; por isso sangrava, e por isso gritava. Perguntámos-lhe de onde vinha e para onde ia, mas não soube, ou não pôde, ou não quis responder.

Limitou-se a encolher os ombros, e a seguir disse:

— Por aí, pelo ar.

O que não queria dizer nada, porque o ar estava claro, sem um único rasto nem nada que se lhe parecesse. Podia vir de Nova lorque com destino ao Cairo, mas isto era inverosímil, porque tinha que atravessar a lagoa Antela e, como se sabe, os mosquitos não o permitem: são uns mosquitos de alta estirpe, muito senhores do seu nariz, e proíbem a passagem a todo o bicho careta. Era mais verosímil que viesse do Sol e que fosse a caminho do último dos planetas. Que tivesse caído pelo caminho, ou que se tivesse agarrado ela própria à roseira, Sabe se lá!  (…)»

                In Doménica -  Gonzalo Torrente Ballester


Um Criado Exemplar


«Por vezes, Erneste dava por si a pensar como desejava o verdadeiro Jakob, enquanto o Jakob real estava deitado a seu lado. Embora sentisse o seu calor, recordava o Jakob que naquele dia o abandonara no cais da estação de Basileia e que depois se esfumara lá longe na sua casa, em Colónia, longe de Erneste. Desde o seu regresso da Alemanha, o corpo de Jakob, que ele conhecia melhor do que o seu, parecia habitado por outra pessoa. A voz continuava a mesma, mas a sua maneira de falar, de expressar o que via e ouvia, tudo era diferente.

Jakob tornara-se vaidoso, com modos que não ficavam bem a um criado de mesa, independentemente da sua beleza e popularidade. Isto feria Erneste, porque se preocupava com o futuro e a reputação do jovem e tentou dizer-lho, alertando-o algumas vezes: «Jakob, toma cuidado com o que dizes», ou «Jakob, não fales tanto, não gostam que fales tanto». Mas não valia de nada. Jakob sorria, esfregava o olho direito com o dedo indicador ou pousava a mão na barriga de Erneste e só dizia: «Tudo bem»

Não ficava impressionado quando Erneste o advertia de que, algum diairia ter sérias dificuldades com o director Wagner ou com um das hóspedes, Jakob estava perfeitamente seguro de si próprio. Embora não fosse o mesmo de outrora, não tinham surgido quaisquer dificuldades. As mudanças que Erneste observava nele não prejudicavam a sua popularidade, antes pelo contrário, pareciam ainda aumentá-la.

Erneste teve de reconhecer que só existia este Jakob, o presente, naquele corpo, num corpo que nunca se lhe negava, nem de dia nem de noite.(…)»

                                 
In Um Criado Exemplar - Alain Claude Sulzer


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

A Propósito de Nada

 


«(…) À medida que fui ficando mais velho, não apenas a extinção, mas a ausência de significado da existência tornaram-se mais claras. Deparava-me com a mesma pergunta que havia perturbado o antigo príncipe da Dinamarca: Porquê sofrer com fundas e setas quando posso simplesmente molhar o nariz, enfiá-lo numa tomada elétrica e nunca mais ter de lidar com a ansiedade, o sofrimento ou o frango cozido da minha mãe? Hamlet optou por não o fazer porque temia o que lhe pudesse acontecer no Além, mas eu não acreditava no Além, por isso, tendo em consideração a minha avaliação absolutamente sombria da condição humana e do seu carácter absurdo e doloroso, porquê prosseguir? No final, não conseguia encontrar uma razão lógica para o fazer e cheguei à conclusão de que enquanto seres humanos, fomos simplesmente feitos para resistir à morte. O sangue vence o cérebro. Não existe uma razão lógica para nos agarrarmos à vida, mas quem quer saber o que diz a cabeça quando o coração diz: Já viste a Lola de minissaia? Por muito que nos lamentemos, gemamos e insistamos, frequentemente de forma bastante persuasiva , que a vida é um pesadelo inútil de sofrimento e lágrimas, se um homem entrasse subitamente na sala com uma faca para nos matar, reagiríamos instantaneamente. Agarrávamo-lo e lutávamos com cada pitada de energia que possuímos para o desarmar e sobreviver. (Eu fugia.) Isto, alego, é uma propriedade reservada apenas às nossas moléculas. Por esta altura, provavelmente já percebeu que para além de eu não ser intelectual, também não sou muito divertido em festas.»

                                                                              In A propósito de Nada -Autobiografia-  Woody Allen



sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Do Tempo que Urge

 




Afogados em logísticas diárias corremos para o tempo sem tempo.

Enchemos agendas digitais de compromissos intermináveis e fingimos que vivemos. A métrica dos dias faz-se pela produtividade da agenda. E de repente o ano encolhe-se em semanas e dentro das semanas evaporam-se os dias.

Comprometidos com o relógio que engole as horas numa fúria insaciável, assinalamos as tarefas completas e reagendamos as que ficaram para trás na esperança de enganar o próprio tempo. Ansiosos avançamos, corremos, lutamos para chegar ao fim do dia e ao deitar a cabeça na almofada podermos libertarmo-nos da ansiedade e dizer: consegui! Hoje fiz tudo o que tinha agendado. A seguir fechamos os olhos e tentamos adormecer rápido antes que a ansiedade do que temos planeado para o dia seguinte nos invada.

E assim continuamos, na ilusão de uma vida cheia.

Mas quando a agenda esvazia, já não sabemos quem somos. Se somos alma da gente ou gente sem alma. E seguimos viagem sem pensar muito nisso. Seguimos a nossa vida instantânea, prêt-a-porter, self-service, ready to go, fast and furious….

Autómatos inconscientes seguimos pelo mundo sem olhar, sem ver, sem sentir, incomodados pela chatice dos que ainda se manifestam pelas causas perdidas que fazem parar o transito e atrasam os compromissos que com tanto cuidado planeamos.

Seguimos anestesiados. Tomamos analgésicos e antidepressivos.  Dizia o poeta que pelo sonho é que vamos, talvez…mas vamos como sonâmbulos, vamos com pressa. Dormimos por impossibilidade de não o fazer, comemos a mais ou a menos, comemos sem regra ou all included...ou comemos, dormimos e exercitamo-nos com tantas regras que as réstias do prazer do excesso são aniquiladas no pensamento.

Fez-se tarde. Vou dormir. O dia que hoje passou foi já riscado da agenda e desta breve vida. Amanhã fingiremos todos estar vivos de novo.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Verão

 


Não fui feita para dias velozes nem para rotinas permanentes.

Sou mais feliz na contemplação em silêncio ou na observação do burburinho. Mas a realidade do sustento da vida não se compadece destas fragilidades da alma.

Podemos chamar-lhe coragem ou medo da rendição, escolham vocês. O movimento combate a ansiedade e o tédio das rotinas. Não me lembro quando começou esta pulsão da persistência, do culto da persistência…esta pressão ora extrínseca ora intrínseca para persistir e insistir. Eu própria rezo ao Universo das escolhas que se querem conscientes e persistentes.

Tendemos a subestimar o acaso e o aleatório, talvez na negação do maior e inevitável de todos os acasos, que chegará um dia sem aviso - a nossa própria morte.

Achamos do alto da nossa arrogância humana que se tivermos sempre tudo planeado «fintamos» o azar e todos os acontecimentos aleatórios indesejáveis que por aí andem à espreita, como se porventura as melhores coisas da vida não nascessem, também elas, de felizes acasos. E assim seguimos, com as nossas agendas onde raramente vem marcado dia e hora para deixar fluir o acaso- Nem morte nem amor.

Resta apenas uma existência arrastada: existir para que outros existam também, na esperança de que alguns de nós realizem um qualquer propósito por aparente acaso divino não agendado.

Talvez neste sol de agosto consigamos libertar amarras e deixar, nem que seja apenas por breves instantes, a vida empurrar-nos. Brindemos a isso.



 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Viajar é preciso

 

O melhor das viagens é a memória que guardamos delas.

Pode ser uma imagem, um ambiente, uma pessoa, um cheiro ou até mesmo um som. Quantas vezes ao escutarmos uma música que disfrutámos num momento especial de certa viagem acende a memória de forma instantânea, transportando-nos para esse tempo vivido e trazendo aos sentidos toda a intensidade desse momento passado.

Também há viagens que acontecem dentro da nossa cabeça. Uma viagem imaginada pode ser muito poderosa. Não tem tempo nem espaço. Existe noutra dimensão. A dimensão do sonho. Se o sonho comanda a vida, as viagens sonhadas podem levar-nos onde quisermos quando quisermos. Livre da materialidade, sem limites.

Hoje escolho viajar de olhos fechados. Amanhã, quem sabe, talvez partilhe por aqui essa demanda que ainda não sei onde começa ou acaba. Vou ainda escolher se vai ser épica ou apenas tranquila. Venturosa ou apenas morna, como uma maré de Verão no mediterrâneo com o horizonte lá ao fundo a perder de vista.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A minha crise cinematográfica, ou a vã glória de Hollywood

 




Gostar de cinema é algo que não se escolhe quando se passou pelo século XX. Todos os géneros, todas as cores, todos os efeitos especiais desta vida nasceram no século XX. A televisão foi aos poucos engolindo o cinema e atualmente ir ao cinema é um ritual anual ou semestral para a maioria dos comuns mortais. Os canais de streaming tornaram-se os donos disto tudo e as televisões transformaram-se em aparelhos de alta-definição com dimensões bastantes consideráveis. Mas o pior é que as gerações mais jovens já não querem saber desses detalhes, pois fica tudo reduzido à dimensão do ecrã do telemóvel. A privacidade do visionamento sobrepôs-se à qualidade do mesmo.
Mas não era bem disto que eu queria falar quando iniciei esta postagem. Na verdade, eu queria mesmo confessar a minha ascensão e queda no mundo da cinofilia.
O primeiro filme que vi na vida no cinema foi em sueco e chamava-se  Pippi Långstrump ou Pipi das meias altas, se preferirem. Não percebi patavina, até porque não sabia ler ainda. Depois vieram as animações Walt Disney com a Bela Adormecida e o Pinóquio. Mais tarde a Guerra das Estrelas, Flash Gordon, Choque de Titãs, Indiana Jones, e nunca mais parou. Na televisão assistia a séries como Raízes e Holocausto - nenhuma delas adequada à minha idade – talvez por isso demasiado marcantes a ponto de provocarem em mim um imenso sentido de injustiça e revolta que perdurou desde aí. Depois vieram os filmes antigos western, o Fred Astaire no fantástico Cinderela em Paris, e as séries policiais da Ms Marple ou do Sherlock Holmes…
Mais tarde, comecei a assistir a cinema de autor fora do mainstream. Fellini, Pasolini, Godart, Oliveira, Ingmar Bergman, Greenaway, Moretti, Almodovar, Woody Allen, etc. Por esta altura quase me divorciei de Hollywood, tal era o choque conceptual destes filmes por comparação. Ficou o Hitchcock, o Tarentino e pouco mais.
Entretanto, com o passar do tempo e com o nascer dos filhos, fiz as pazes com os óscares, e decorrente de uma produção mais diversificada e á medida de todos os gostos lá fui retomando o ecrã mais american way. 
Agora, como a maior parte das pessoas, pouco vou ao cinema e a Netflix domina os ecrãs cá de casa. Mais em séries do que em filmes. Perdi a paciência para filmes que requeiram muito esforço intelectual dando prevalência aos que me trazem boa disposição e afastamento da realidade. Violência fujo a sete pés tirando uma ou outra tropelia da Marvel ou filmes de guerra baseados em factos verídicos. Pouca resistência tenho para dramas existenciais, lamechices ou enredos carregados de analepses e prolepses que não tenham uma boa história ou ação associada. Posto isto, sinto que emburreci, para a cinofilia. Não por incapacidade de apreciar um bom filme de autor, mas por preguiça intelectual.
Foi esse o confronto que senti hoje ao visionar o novo Avatar. Em 3D, como não poderia deixar de ser. Imaginei alguém que fosse projetado no tempo de uma sala em que assistia a um filme mudo para aquele momento em que seres imaginários vivem à nossa frente como criaturas reais. Tirando essa espetacularidade, que tem mais a ver com digitalização de efeitos especiais do que com cinema, o filme é a perfeita «xaropada». Vale a mensagem subliminar da necessidade de proteger a natureza e como toda a vida está interligada. A estória mais do que repetida vezes sem conta dos bons contra os maus em que no fim explode tudo alguém fica preso por um braço ou encurralado, mas acaba sempre por se salvar fruto da coragem avassaladora do próprio personagem ou de alguém que vai ganhando aura de herói no decorrer da estória. Foi isto. Ou seja, um tema sério é abafado por tanto explosivo e inverosimilhança.
Não sei se mais alguma vez vou sair desta cave a que desci, mas reconheço que tenho feito más escolhas. «May the Force be with you».