Sou mais feliz na contemplação em silêncio ou na observação
do burburinho. Mas a realidade do sustento da vida não se compadece destas fragilidades
da alma.
Podemos chamar-lhe coragem ou medo da rendição, escolham
vocês. O movimento combate a ansiedade e o tédio das rotinas. Não me lembro
quando começou esta pulsão da persistência, do culto da persistência…esta
pressão ora extrínseca ora intrínseca para persistir e insistir. Eu própria
rezo ao Universo das escolhas que se querem conscientes e persistentes.
Tendemos a subestimar o acaso e o aleatório, talvez na negação
do maior e inevitável de todos os acasos, que chegará um dia sem aviso - a
nossa própria morte.
Achamos do alto da nossa arrogância humana que se tivermos
sempre tudo planeado «fintamos» o azar e todos os acontecimentos aleatórios
indesejáveis que por aí andem à espreita, como se porventura as melhores coisas
da vida não nascessem, também elas, de felizes acasos. E assim seguimos, com as
nossas agendas onde raramente vem marcado dia e hora para deixar fluir o acaso-
Nem morte nem amor.
Resta apenas uma existência arrastada: existir para que
outros existam também, na esperança de que alguns de nós realizem um qualquer
propósito por aparente acaso divino não agendado.
Talvez neste sol de agosto consigamos libertar amarras e deixar, nem que seja apenas por breves instantes, a vida empurrar-nos. Brindemos a isso.
