segunda-feira, 31 de julho de 2023

Verão

 


Não fui feita para dias velozes nem para rotinas permanentes.

Sou mais feliz na contemplação em silêncio ou na observação do burburinho. Mas a realidade do sustento da vida não se compadece destas fragilidades da alma.

Podemos chamar-lhe coragem ou medo da rendição, escolham vocês. O movimento combate a ansiedade e o tédio das rotinas. Não me lembro quando começou esta pulsão da persistência, do culto da persistência…esta pressão ora extrínseca ora intrínseca para persistir e insistir. Eu própria rezo ao Universo das escolhas que se querem conscientes e persistentes.

Tendemos a subestimar o acaso e o aleatório, talvez na negação do maior e inevitável de todos os acasos, que chegará um dia sem aviso - a nossa própria morte.

Achamos do alto da nossa arrogância humana que se tivermos sempre tudo planeado «fintamos» o azar e todos os acontecimentos aleatórios indesejáveis que por aí andem à espreita, como se porventura as melhores coisas da vida não nascessem, também elas, de felizes acasos. E assim seguimos, com as nossas agendas onde raramente vem marcado dia e hora para deixar fluir o acaso- Nem morte nem amor.

Resta apenas uma existência arrastada: existir para que outros existam também, na esperança de que alguns de nós realizem um qualquer propósito por aparente acaso divino não agendado.

Talvez neste sol de agosto consigamos libertar amarras e deixar, nem que seja apenas por breves instantes, a vida empurrar-nos. Brindemos a isso.