Naquele tempo Rosália tinha o hábito de fechar os olhos com
força durante vários minutos (nem sabia bem quantos, pois o tempo variava
consoante o grau de tédio). Fechava os olhos com força para ver melhor para
dentro.
Via muitas coisas quando fechava os olhos assim. Rosália
tinha a certeza que via o Universo. Se fosse dia, começava com uma mancha
laranja que se expandia. Se fosse noite, espirais de cor que perseguia sem
saber onde acabavam. Só podia ser o Universo.
Nos momentos de escuridão surgia sempre aquela pergunta sem
resposta: o que é o nada? Qual o pano de fundo da não existência? O breu do
espaço? Rosália hesitava. Mas então o breu do espaço é o fundo de quê?
Rosália tinha apenas oito anos. Que raio de dúvidas para uma
menina de oito anos. Seria muito mais adequado pensar nos berlindes que perdera
no recreio da escola ou nos deveres de matemática por fazer. Mas aquela
matemática de torneiras a pingar metros cúbicos de água ou de automóveis que
vão de Lisboa ao Porto a 120 quilómetros hora e queremos saber a que horas irá jantar
o condutor, não lhe interessava.
Interessantes eram os livros sobre OVNIS ou histórias de
fantasmas. A avó garantia-lhe que os fantasmas existiam, já se tinha encontrado
com alguns. O pai, por sua vez, tinha a certeza de que existiam extraterrestres
- estava tudo oculto nos arquivos secretos americanos.
Chegou a sonhar com os ditos OVNIS. Encontros imediatos. O
seu maior desejo era ser surpreendida, uma qualquer noite, enquanto admirava as
estrelas, por uma forma circular com as cores do arco-íris a deslocar-se a
grande velocidade …- era assim que imaginava as naves espaciais alienígenas.
Era assim que já as tinha visto em sonhos.
Já os fantasmas, não os tinha em tão boa conta. Apenas pavor
de se cruzar com algum quando entrava numa divisão escura da casa. Não lidava
bem com esse potencial encontro e até o ar lhe faltava enquanto não encontrava o
interruptor mais próximo.
O mundo era realmente um mistério. Afinal donde vinham e
para onde iam as almas? Por mais que fechasse os olhos para admirar o Universo,
ou que tentasse perceber para lá do breu espacial, nunca chegava a uma
conclusão.
Hoje Rosália desistiu de fechar os olhos. Prefere mantê-los
bem abertos, certa de que um dia encontrará resposta para todas as perguntas.
Seja num disco voador ou num espectro esvoaçante.
