quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A minha crise cinematográfica, ou a vã glória de Hollywood

 




Gostar de cinema é algo que não se escolhe quando se passou pelo século XX. Todos os géneros, todas as cores, todos os efeitos especiais desta vida nasceram no século XX. A televisão foi aos poucos engolindo o cinema e atualmente ir ao cinema é um ritual anual ou semestral para a maioria dos comuns mortais. Os canais de streaming tornaram-se os donos disto tudo e as televisões transformaram-se em aparelhos de alta-definição com dimensões bastantes consideráveis. Mas o pior é que as gerações mais jovens já não querem saber desses detalhes, pois fica tudo reduzido à dimensão do ecrã do telemóvel. A privacidade do visionamento sobrepôs-se à qualidade do mesmo.
Mas não era bem disto que eu queria falar quando iniciei esta postagem. Na verdade, eu queria mesmo confessar a minha ascensão e queda no mundo da cinofilia.
O primeiro filme que vi na vida no cinema foi em sueco e chamava-se  Pippi Långstrump ou Pipi das meias altas, se preferirem. Não percebi patavina, até porque não sabia ler ainda. Depois vieram as animações Walt Disney com a Bela Adormecida e o Pinóquio. Mais tarde a Guerra das Estrelas, Flash Gordon, Choque de Titãs, Indiana Jones, e nunca mais parou. Na televisão assistia a séries como Raízes e Holocausto - nenhuma delas adequada à minha idade – talvez por isso demasiado marcantes a ponto de provocarem em mim um imenso sentido de injustiça e revolta que perdurou desde aí. Depois vieram os filmes antigos western, o Fred Astaire no fantástico Cinderela em Paris, e as séries policiais da Ms Marple ou do Sherlock Holmes…
Mais tarde, comecei a assistir a cinema de autor fora do mainstream. Fellini, Pasolini, Godart, Oliveira, Ingmar Bergman, Greenaway, Moretti, Almodovar, Woody Allen, etc. Por esta altura quase me divorciei de Hollywood, tal era o choque conceptual destes filmes por comparação. Ficou o Hitchcock, o Tarentino e pouco mais.
Entretanto, com o passar do tempo e com o nascer dos filhos, fiz as pazes com os óscares, e decorrente de uma produção mais diversificada e á medida de todos os gostos lá fui retomando o ecrã mais american way. 
Agora, como a maior parte das pessoas, pouco vou ao cinema e a Netflix domina os ecrãs cá de casa. Mais em séries do que em filmes. Perdi a paciência para filmes que requeiram muito esforço intelectual dando prevalência aos que me trazem boa disposição e afastamento da realidade. Violência fujo a sete pés tirando uma ou outra tropelia da Marvel ou filmes de guerra baseados em factos verídicos. Pouca resistência tenho para dramas existenciais, lamechices ou enredos carregados de analepses e prolepses que não tenham uma boa história ou ação associada. Posto isto, sinto que emburreci, para a cinofilia. Não por incapacidade de apreciar um bom filme de autor, mas por preguiça intelectual.
Foi esse o confronto que senti hoje ao visionar o novo Avatar. Em 3D, como não poderia deixar de ser. Imaginei alguém que fosse projetado no tempo de uma sala em que assistia a um filme mudo para aquele momento em que seres imaginários vivem à nossa frente como criaturas reais. Tirando essa espetacularidade, que tem mais a ver com digitalização de efeitos especiais do que com cinema, o filme é a perfeita «xaropada». Vale a mensagem subliminar da necessidade de proteger a natureza e como toda a vida está interligada. A estória mais do que repetida vezes sem conta dos bons contra os maus em que no fim explode tudo alguém fica preso por um braço ou encurralado, mas acaba sempre por se salvar fruto da coragem avassaladora do próprio personagem ou de alguém que vai ganhando aura de herói no decorrer da estória. Foi isto. Ou seja, um tema sério é abafado por tanto explosivo e inverosimilhança.
Não sei se mais alguma vez vou sair desta cave a que desci, mas reconheço que tenho feito más escolhas. «May the Force be with you».