terça-feira, 30 de agosto de 2022

Então e eu?

Entrei no Banco. Há muitos anos que não ia a um Banco. O digital trouxe-nos a dádiva de reduzir ao inevitável as nossas deslocações a entidades várias libertando-nos do desconforto da maçada das filas e da má disposição de quem nelas fica demasiado tempo, incluindo nós próprios.

O Banco foi remodelado há algum tempo e transformou-se numa espécie de frigorifico hospitalar - Possivelmente para evitar que as pessoas permaneçam muito tempo por lá. Falácia. Com cada vez menos funcionários, o tempo de espera pode rondar uma hora ou mais. 
Estava eu perdida no meio das minhas observações, eis que, de repente, vibra no ar a voz de uma senhora que dirigindo-se à empregada de atendimento na caixa, rebenta assim:
- Oh minha Senhora, sabe que está ali um papel na entrada a dizer que os idosos e deficientes têm prioridade? É que eu tenho oitenta e cinco anos, e sou deficiente! Estou aqui à espera há mais de uma hora!
- Então minha Senhora – responde a empregada estupefacta – deveria ter-se dirigido aqui ao balcão, porque nós estamos concentradas no trabalho e não a observar quem está em fila de espera….
Pensei: Ah! Que saudades tinha de uma boa troca de hostilidades em espaços de atendimento ao público! – Isto depois de eu própria ter saído e voltado para colocar mais uma moeda no parquímetro, porque incautamente, tive a ingenuidade de achar que o assunto a tratar era coisa rápida.

sábado, 27 de agosto de 2022

Reflexão I



Foi pelo fim que tudo começou. E é sempre assim.

Biliões de segundos ou biliões de anos, pouco importa. É a continuidade contraditória do ciclo que nos leva.

Olho o céu e é o mesmo céu dos cinco anos. O mesmo céu dos dez, dos treze, dos dezoito, dos vinte, dos trinta…o mesmo céu do dia em que corri pelo recreio da escola, do dia em que morri de vergonha porque não pedi a tempo à professora para ir aos lavabos, o mesmo céu dos dias de praia intermináveis e das noites tristes ou felizes. O mesmo céu do dia em que te conheci e do dia em que me ofereceste flores pela primeira vez. O mesmo céu do dia em que nasceste meu filho milagre e de certeza que era o mesmo céu no dia em que nasceste minha filha milagre.

E debaixo deste céu deixei de saber quem sou.

Deixei, como, tantos outros, pós invasão do ser microscópio desconhecido que tantas vidas levou e destruiu, seguido do regresso dos fantasmas passados de guerra na Europa, de percecionar o propósito desta corrida contra o tempo de logísticas intermináveis.

 Foi como se uma tomada de consciência coletiva se abatesse sobre as nossas cabeças qual pesadelo gaulês. Ficou tudo exposto. A mentira à vista….

Olhámos para o mapa que nos impingiram em tempos para alcançar a felicidade na Terra e vimos que afinal estava obsoleto…estradas que já não iam dar a sítio nenhum, caminhos novos que não apareciam no mapa, indicações em línguas mortas, ausência de propósito e de humanidade, mas então e agora?

Agora cumpre fazer o que é suposto fazer quando nos perdemos: paramos, observamos, perguntamos, procuramos, aliviamos o peso da mochila, se estiver muito pesada a atrapalhar a caminhada e começamos a andar. Talvez com sorte encontremos um mapa atualizado com destino ao melhor de nós mesmos.