«(…) À medida que fui ficando
mais velho, não apenas a extinção, mas a ausência de significado da existência
tornaram-se mais claras. Deparava-me com a mesma pergunta que havia perturbado
o antigo príncipe da Dinamarca: Porquê sofrer com fundas e setas quando posso
simplesmente molhar o nariz, enfiá-lo numa tomada elétrica e nunca mais ter de
lidar com a ansiedade, o sofrimento ou o frango cozido da minha mãe? Hamlet
optou por não o fazer porque temia o que lhe pudesse acontecer no Além, mas eu
não acreditava no Além, por isso, tendo em consideração a minha avaliação
absolutamente sombria da condição humana e do seu carácter absurdo e doloroso,
porquê prosseguir? No final, não conseguia encontrar uma razão lógica para o
fazer e cheguei à conclusão de que enquanto seres humanos, fomos simplesmente
feitos para resistir à morte. O sangue vence o cérebro. Não existe uma razão
lógica para nos agarrarmos à vida, mas quem quer saber o que diz a cabeça
quando o coração diz: Já viste a Lola de minissaia? Por muito que nos lamentemos,
gemamos e insistamos, frequentemente de forma bastante persuasiva , que a vida
é um pesadelo inútil de sofrimento e lágrimas, se um homem entrasse subitamente
na sala com uma faca para nos matar, reagiríamos instantaneamente. Agarrávamo-lo
e lutávamos com cada pitada de energia que possuímos para o desarmar e
sobreviver. (Eu fugia.) Isto, alego, é uma propriedade reservada apenas às
nossas moléculas. Por esta altura, provavelmente já percebeu que para além de
eu não ser intelectual, também não sou muito divertido em festas.»
In A propósito de Nada -Autobiografia-
Woody Allen