terça-feira, 14 de janeiro de 2025

A Propósito de Nada

 


«(…) À medida que fui ficando mais velho, não apenas a extinção, mas a ausência de significado da existência tornaram-se mais claras. Deparava-me com a mesma pergunta que havia perturbado o antigo príncipe da Dinamarca: Porquê sofrer com fundas e setas quando posso simplesmente molhar o nariz, enfiá-lo numa tomada elétrica e nunca mais ter de lidar com a ansiedade, o sofrimento ou o frango cozido da minha mãe? Hamlet optou por não o fazer porque temia o que lhe pudesse acontecer no Além, mas eu não acreditava no Além, por isso, tendo em consideração a minha avaliação absolutamente sombria da condição humana e do seu carácter absurdo e doloroso, porquê prosseguir? No final, não conseguia encontrar uma razão lógica para o fazer e cheguei à conclusão de que enquanto seres humanos, fomos simplesmente feitos para resistir à morte. O sangue vence o cérebro. Não existe uma razão lógica para nos agarrarmos à vida, mas quem quer saber o que diz a cabeça quando o coração diz: Já viste a Lola de minissaia? Por muito que nos lamentemos, gemamos e insistamos, frequentemente de forma bastante persuasiva , que a vida é um pesadelo inútil de sofrimento e lágrimas, se um homem entrasse subitamente na sala com uma faca para nos matar, reagiríamos instantaneamente. Agarrávamo-lo e lutávamos com cada pitada de energia que possuímos para o desarmar e sobreviver. (Eu fugia.) Isto, alego, é uma propriedade reservada apenas às nossas moléculas. Por esta altura, provavelmente já percebeu que para além de eu não ser intelectual, também não sou muito divertido em festas.»

                                                                              In A propósito de Nada -Autobiografia-  Woody Allen