Foi pelo fim que tudo começou. E é sempre assim.
Biliões de segundos ou biliões de anos, pouco importa. É a
continuidade contraditória do ciclo que nos leva.
Olho o céu e é o mesmo céu dos cinco anos. O mesmo céu dos
dez, dos treze, dos dezoito, dos vinte, dos trinta…o mesmo céu do dia em que
corri pelo recreio da escola, do dia em que morri de vergonha porque não pedi a
tempo à professora para ir aos lavabos, o mesmo céu dos dias de praia
intermináveis e das noites tristes ou felizes. O mesmo céu do dia em que te
conheci e do dia em que me ofereceste flores pela primeira vez. O mesmo céu do
dia em que nasceste meu filho milagre e de certeza que era o mesmo céu no dia
em que nasceste minha filha milagre.
E debaixo deste céu deixei de saber quem sou.
Deixei, como, tantos outros, pós invasão do ser microscópio
desconhecido que tantas vidas levou e destruiu, seguido do regresso dos
fantasmas passados de guerra na Europa, de percecionar o propósito desta
corrida contra o tempo de logísticas intermináveis.
Foi como se uma
tomada de consciência coletiva se abatesse sobre as nossas cabeças qual
pesadelo gaulês. Ficou tudo exposto. A mentira à vista….
Olhámos para o mapa que nos impingiram em tempos para
alcançar a felicidade na Terra e vimos que afinal estava obsoleto…estradas que
já não iam dar a sítio nenhum, caminhos novos que não apareciam no mapa,
indicações em línguas mortas, ausência de propósito e de humanidade, mas então
e agora?
Agora cumpre fazer o que é suposto fazer quando nos
perdemos: paramos, observamos, perguntamos, procuramos, aliviamos o peso da
mochila, se estiver muito pesada a atrapalhar a caminhada e começamos a andar.
Talvez com sorte encontremos um mapa atualizado com destino ao melhor de nós
mesmos.
