quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Dias de Chuva

A chuva cai sem se importar com os transtornos urbanos. Dá brilho ao asfalto e limpa o pó das ruas, telhados, carros e esplanadas. 

Produz uma musicalidade que apenas os ouvidos mais atentos e sensíveis conseguem fruir.

Propaga cheiro a Outono pelo ar e traz memórias de outras geografias donde goteja do céu com mais frequência. Usufruir de um dia de chuva é um privilégio que tem de ser bem aproveitado.

A companhia de Michael Nyman enaltece sempre um dia de chuva. Uma espécie de overdose de my favorite things, acompanha dias assim em que a melancolia retira a importância a tudo o que acontece e envolve as horas num manto de sonho acordado.

Tantos dias de chuva de correrias desenfreadas a contrastar com outros de depurada calma. Se fechar os olhos vejo pessoas às cores de guarda-chuva no seu passo apressado pelas ruas da cidade. A correr para os trabalhos, para as escolas, para os supermercados, para encontros com amigos, com amantes, com transportes…ou então vejo estradas cheias de carros com os faróis a iluminar um rio a fluir. Um rio sem nascente e sem foz.

Vejo bares e restaurantes cheios de gente em alegre convívio e vejo aquele transeunte anónimo que caminha só e sem destino. Onde irá? Quantos dias de chuva já viveu? Quantos enfrentou assim, sem caminho a seguir os seus próprios passos? Será o primeiro? Há também dias de chuva assim. Ensurdecedores e vazios.

Hoje vou pelo sonho, entre a melodia do The Promisse e as gotas a cair lá fora. Hoje escolhi ser feliz num dia de chuva.

 

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