A chuva cai sem se importar com os transtornos urbanos. Dá brilho ao asfalto e limpa o pó das ruas, telhados, carros e esplanadas.
Produz uma musicalidade que apenas os ouvidos mais atentos e sensíveis conseguem fruir.
Propaga cheiro a Outono pelo ar e traz memórias de outras
geografias donde goteja do céu com mais frequência. Usufruir de um dia de chuva
é um privilégio que tem de ser bem aproveitado.
A companhia de Michael Nyman enaltece sempre um dia de chuva.
Uma espécie de overdose de my favorite things, acompanha dias assim em que a
melancolia retira a importância a tudo o que acontece e envolve as horas num
manto de sonho acordado.
Tantos dias de chuva de correrias desenfreadas a contrastar
com outros de depurada calma. Se fechar os olhos vejo pessoas às cores de
guarda-chuva no seu passo apressado pelas ruas da cidade. A correr para os
trabalhos, para as escolas, para os supermercados, para encontros com amigos,
com amantes, com transportes…ou então vejo estradas cheias de carros com os faróis
a iluminar um rio a fluir. Um rio sem nascente e sem foz.
Vejo bares e restaurantes cheios de gente em alegre convívio
e vejo aquele transeunte anónimo que caminha só e sem destino. Onde irá?
Quantos dias de chuva já viveu? Quantos enfrentou assim, sem caminho a seguir
os seus próprios passos? Será o primeiro? Há também dias de chuva assim.
Ensurdecedores e vazios.
Hoje vou pelo sonho, entre a melodia do The Promisse e as gotas
a cair lá fora. Hoje escolhi ser feliz num dia de chuva.

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