Quem viveu nos anos oitenta, já consciente do mundo, está a viver um déjà-vu. A diferença era que nos anos oitenta não havia uma guerra efetiva a acontecer na Europa…Havia a URSS, havia resquícios de alianças e «desalianças» decorrentes da segunda guerra e proliferavam os conflitos que ficaram a sangrar nos países africanos e no médio oriente. Mas esses últimos eram coisa distante e como tudo o que está distante, não se vê e não se sente.
Lembro-me de ter medo. Lembro-me de ver filmes /
documentários sobre as consequências do nuclear e ter medo. Lembro-me a
primeira vez que estive na Alemanha, apenas dois anos após a queda do Muro de
Berlin e sentir de perto ainda o cinzentismo do que por ali havia passado…
Hoje vemos os noticiários e consequência de tão espetaculares
produções Hollywoodescas já não distinguimos a realidade da ficção. Assisti ao
11 de setembro em direto e caiu-me o queixo ao mesmo tempo que as torres. Naquele
momento senti que a realidade superou a ficção. Tinha estado junto às torres
gémeas poucos anos antes e claro, é quando nos identificamos numa vivência que ficamos
mais permeáveis à empatia com o choque do momento, se é que tal coisa é verdadeiramente
possível.
Entrar no memorial da 2ª guerra mundial em Caen na Normandia
leva-nos a uma viagem negra na história da humanidade e a uma lição de
humildade e gratidão. Há uma sala em particular, (penso que existem mais como
esta noutros museus dedicados ao tema) onde estão expostas simplesmente
fotografias de famílias, daquelas que todos já vimos nas casas dos avós.
É esta consciência humana que suplanta toda a lógica da
guerra. 70 a 85 milhões de mortos (3% da população mundial) é um número que impressiona,
mas é um número. Quando pegamos em apenas 10 destas pessoas e associamos a famílias
destruídas, sofrimento incalculável, é que começamos verdadeiramente a ter
noção da tragédia humana. Algumas delas estão ali em Caen a olhar para nós
quando ainda existiam e não poderiam imaginar o destino que lhes estava
reservado. Acima de tudo, estão ali para nos alertar, consciencializar e
recordar a nossa vulnerabilidade e efemeridade.
Agora vemos a destruição na Ucrânia. As baixas de ambos os
lados e mais uma vez na história um louco com poder a aliar-se a outros como
ele ou a recrutar pelo medo.
Estes seres humanos não são mais nem menos do que outros que
igualmente sofrem noutros conflitos longe da Europa, apenas protagonizam um conflito perigosamente
perto de nós, vivendo numa sociedade semelhante à nossa e por isso nos identificamos. Como um fechar de um ciclo de destruição a aproximar-se.
A par disto a economia vai abanando. Não é da minha natureza
ser dramática ou apocalíptica, mas sinceramente desde que esta guerra começou sinto
que entrámos numa espiral irreversível. Demasiadas semelhanças com outros
contextos históricos. E quem estudou história sabe que a história é cíclica.
«Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como
será a quarta: com pedras e paus.» - Albert Einstein
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