terça-feira, 4 de outubro de 2022

Da guerra fria e outros temas quentes

 

Quem viveu nos anos oitenta, já consciente do mundo, está a viver um déjà-vu. A diferença era que nos anos oitenta não havia uma guerra efetiva a acontecer na Europa…Havia a URSS, havia resquícios de alianças e «desalianças» decorrentes da segunda guerra e proliferavam os conflitos que ficaram a sangrar nos países africanos e no médio oriente. Mas esses últimos eram coisa distante e como tudo o que está distante, não se vê e não se sente.

Lembro-me de ter medo. Lembro-me de ver filmes / documentários sobre as consequências do nuclear e ter medo. Lembro-me a primeira vez que estive na Alemanha, apenas dois anos após a queda do Muro de Berlin e sentir de perto ainda o cinzentismo do que por ali havia passado…

Hoje vemos os noticiários e consequência de tão espetaculares produções Hollywoodescas já não distinguimos a realidade da ficção. Assisti ao 11 de setembro em direto e caiu-me o queixo ao mesmo tempo que as torres. Naquele momento senti que a realidade superou a ficção. Tinha estado junto às torres gémeas poucos anos antes e claro, é quando nos identificamos numa vivência que ficamos mais permeáveis à empatia com o choque do momento, se é que tal coisa é verdadeiramente possível.

Entrar no memorial da 2ª guerra mundial em Caen na Normandia leva-nos a uma viagem negra na história da humanidade e a uma lição de humildade e gratidão. Há uma sala em particular, (penso que existem mais como esta noutros museus dedicados ao tema) onde estão expostas simplesmente fotografias de famílias, daquelas que todos já vimos nas casas dos avós.

É esta consciência humana que suplanta toda a lógica da guerra. 70 a 85 milhões de mortos (3% da população mundial) é um número que impressiona, mas é um número. Quando pegamos em apenas 10 destas pessoas e associamos a famílias destruídas, sofrimento incalculável, é que começamos verdadeiramente a ter noção da tragédia humana. Algumas delas estão ali em Caen a olhar para nós quando ainda existiam e não poderiam imaginar o destino que lhes estava reservado. Acima de tudo, estão ali para nos alertar, consciencializar e recordar a nossa vulnerabilidade e efemeridade.

Agora vemos a destruição na Ucrânia. As baixas de ambos os lados e mais uma vez na história um louco com poder a aliar-se a outros como ele ou a recrutar pelo medo.

Estes seres humanos não são mais nem menos do que outros que igualmente sofrem noutros conflitos longe da Europa, apenas protagonizam um conflito perigosamente perto de nós, vivendo numa sociedade semelhante à nossa e por isso nos identificamos. Como um fechar de um ciclo de destruição a aproximar-se.

A par disto a economia vai abanando. Não é da minha natureza ser dramática ou apocalíptica, mas sinceramente desde que esta guerra começou sinto que entrámos numa espiral irreversível. Demasiadas semelhanças com outros contextos históricos. E quem estudou história sabe que a história é cíclica.

«Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.» - Albert Einstein


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