sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Doménica

 


«APARECEU numa manhã de domingo no jardim. Por sinal, uma manhã bastante fria.

Devia ser por volta do meio-dia quando ouvimos os gritos e acorremos todos: era uma menina que tinha espetado um pico de roseira na mão direita; por isso sangrava, e por isso gritava. Perguntámos-lhe de onde vinha e para onde ia, mas não soube, ou não pôde, ou não quis responder.

Limitou-se a encolher os ombros, e a seguir disse:

— Por aí, pelo ar.

O que não queria dizer nada, porque o ar estava claro, sem um único rasto nem nada que se lhe parecesse. Podia vir de Nova lorque com destino ao Cairo, mas isto era inverosímil, porque tinha que atravessar a lagoa Antela e, como se sabe, os mosquitos não o permitem: são uns mosquitos de alta estirpe, muito senhores do seu nariz, e proíbem a passagem a todo o bicho careta. Era mais verosímil que viesse do Sol e que fosse a caminho do último dos planetas. Que tivesse caído pelo caminho, ou que se tivesse agarrado ela própria à roseira, Sabe se lá!  (…)»

                In Doménica -  Gonzalo Torrente Ballester


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