«APARECEU numa manhã de domingo
no jardim. Por sinal, uma manhã bastante fria.
Devia ser por volta do meio-dia
quando ouvimos os gritos e acorremos todos: era uma menina que tinha espetado
um pico de roseira na mão direita; por isso sangrava, e por isso gritava. Perguntámos-lhe
de onde vinha e para onde ia, mas não soube, ou não pôde, ou não quis
responder.
Limitou-se a encolher os ombros,
e a seguir disse:
— Por aí, pelo ar.
O que não queria dizer nada,
porque o ar estava claro, sem um único rasto nem nada que se lhe parecesse.
Podia vir de Nova lorque com destino ao Cairo, mas isto era inverosímil, porque
tinha que atravessar a lagoa Antela e, como se sabe, os mosquitos não o
permitem: são uns mosquitos de alta estirpe, muito senhores do seu nariz, e proíbem
a passagem a todo o bicho careta. Era mais verosímil que viesse do Sol e que
fosse a caminho do último dos planetas. Que tivesse caído pelo caminho, ou que
se tivesse agarrado ela própria à roseira, Sabe se lá! (…)»
In Doménica - Gonzalo Torrente Ballester
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