«Por vezes, Erneste dava por si a pensar como desejava o verdadeiro Jakob, enquanto o Jakob real estava deitado a seu lado. Embora sentisse o seu calor, recordava o Jakob que naquele dia o abandonara no cais da estação de Basileia e que depois se esfumara lá longe na sua casa, em Colónia, longe de Erneste. Desde o seu regresso da Alemanha, o corpo de Jakob, que ele conhecia melhor do que o seu, parecia habitado por outra pessoa. A voz continuava a mesma, mas a sua maneira de falar, de expressar o que via e ouvia, tudo era diferente.
Jakob tornara-se vaidoso, com
modos que não ficavam bem a um criado de mesa, independentemente da sua beleza
e popularidade. Isto feria Erneste, porque se preocupava com o futuro e a
reputação do jovem e tentou dizer-lho, alertando-o algumas vezes: «Jakob, toma
cuidado com o que dizes», ou «Jakob, não fales tanto, não gostam que fales
tanto». Mas não valia de nada. Jakob sorria, esfregava o olho direito com o
dedo indicador ou pousava a mão na barriga de Erneste e só dizia: «Tudo bem»
Não ficava impressionado quando
Erneste o advertia de que, algum diairia ter sérias dificuldades com o director
Wagner ou com um das hóspedes, Jakob estava perfeitamente seguro de si próprio.
Embora não fosse o mesmo de outrora, não tinham surgido quaisquer dificuldades.
As mudanças que Erneste observava nele não prejudicavam a sua popularidade,
antes pelo contrário, pareciam ainda aumentá-la.
Erneste teve de reconhecer que só
existia este Jakob, o presente, naquele corpo, num corpo que nunca se lhe
negava, nem de dia nem de noite.(…)»
In Um Criado Exemplar - Alain Claude
Sulzer
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